"O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO"

 

        Imaginem que, naquele fatídico dia, desenrolava-se uma espécie de round final opondo o poder romano à Jesus de Nazaré. Ele estava lá... Aquele que era olhado como Cristo: o Messias, o Dominador, o Libertador... Ele estava lá diante de Pôncio Pilatos, o governador romano; representante do poder opressivo e invasor. O povo olhava e esperava ansioso. Aquele Homem tinha operado sobre a terra milagres como ninguém antes.
“És tu o rei dos judeus?” Pergunta Pilatos. Respondeu-lhe Jesus: “É como dizes”. Portanto, ele não nega ser o Rei que estava causando polémica e dividindo os judeus naquele dia (Mat.27:11).
Sigamos a coisa em João 18:
“ Pilatos, pois, tornou a entrar no pretório, chamou a Jesus e perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus? Respondeu Jesus: Dizes isso de ti mesmo, ou foram outros que to disseram de mim? Replicou Pilatos: Porventura sou eu judeu? O teu povo e os principais sacerdotes entregaram-te a mim; que fizeste?
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; entretanto o meu reino não é daqui. Perguntou-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que eu sou rei...” (Jo.18:33-37)
Vai lá entender alguma coisa... Porque, Pilatos não entendeu nada. Apesar da sua instrução e tudo o mais. Porque, as coisas de Deus se discernem espiritualmente, como está escrito:
“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo…” (1Cor.2:14,15)
         Quando à Jesus se apresentou a oportunidade de destruir o poder opressivo de Roma, e ao mesmo tempo destruir seus inimigos (não se esquecem de que os líderes religiosos judeus também faziam parte dos Seus adversários), Nosso Senhor revelou que Ele não tinha para isso, nem a intenção, nem o motivo. Por que? Pela simples razão que o Seu Reino não era deste mundo. Porque, se o Seu reino fosse deste mundo, Seus servos teriam combatido para que Ele não fosse entregue aos líderes dos judeus, primeiro e em seguida, aos romanos. E, quando um dos Seus discípulos e servos quis lutar para defendê-Lo, O Senhor Jesus o desencorajou com essas palavras: "Mete a tua espada no seu lugar; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia rogar a meu Pai, e que ele não me mandaria agora mesmo mais de doze legiões de anjos?” (Mat.26: 52,53).
Entenderam isso? Até os exércitos do céu não intervieram! Por que? Porque convém que se cumpra tudo o que está escrito. Eis o que estou tentando fazer entender a Igreja de Cristo hoje. Nas nossas orações de "libertação" usamos de palavras violentas; invocamos os exércitos do céu para destruir, destruir e destruir ainda... Isto não vai acontecer, antes que tudo seja consumado, de acordo com o que está escrito. Não, meus irmãos! Nós praguejamos, amaldiçoamos e muito mais... Isto também é uma forma de violência.
No meu entender, a violência é uma reacção. No entanto, Cristo sendo Deus, sabia exactamente o que estava acontecendo. Portanto, Ele não podia "reagir" contra o poder romano. Não, Ele não podia ser um "reaccionário"; nem um “revolucionário”! Ele, O Cristo. Ele sabia que o Seu povo estava debaixo da opressão por causa da desobediência às leis de Deus. Porém, mesmo quando aquele povo, aparentemente, ainda adorava à Deus; O Senhor nos revela em Mat.15: 8,9 isto: “Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem.”
No entanto, se nos debruçarmos com atenção no relacionamento entre Deus e o Seu povo (filhos de Israel) evidenciaremos isto: sempre que este povo desobedeceu ao Senhor-Deus, Este o castigava, entregando-o entre as mãos do inimigo ou do opressor. 
A devastação que recai sobre o país, a fome e outras calamidades diversas, portanto, são ordenados pelo próprio Senhor. Isto nos leva à entender que, as dores que se abatem sobre a terra têm a responsabilidade única dos povos da terra. Porque estes transgridem as leis de Deus, violam os Seus mandamentos e quebram a aliança eterna. Isaías 24: 1-6
“1 Eis que o Senhor esvazia a terra e a desola, transtorna a sua superfície e dispersa os seus moradores.2 E o que suceder ao povo, sucederá ao sacerdote; ao servo, como ao seu senhor; à serva, como à sua senhora; ao comprador, como ao vendedor; ao que empresta, como ao que toma emprestado; ao que recebe usura, como ao que paga usura. 3 De todo se esvaziará a terra, e de todo será saqueada, porque o Senhor pronunciou esta palavra. 4 A terra pranteia e se murcha; o mundo enfraquece e se murcha; enfraquecem os mais altos do povo da terra. 5 Na verdade a terra está contaminada debaixo dos seus habitantes; porquanto transgridem as leis, mudam os estatutos, e quebram o pacto eterno. 6 Por isso a maldição devora a terra, e os que habitam nela sofrem por serem culpados; por isso são queimados os seus habitantes, e poucos homens restam.”
Prestem então atenção a esta coisa e entendem esta Verdade que nos é transmitida, especialmente no livro de Juízes. Como assim? Quando o povo caia em desobediência, Deus o entregava nas mãos de seus inimigos. Mas quando, contrito, o povo tomava a decisão de retornar ao seu Deus; então O Senhor despertava-lhes, à cada vez, um "juiz" para libertá-los da mão do opressor (Ju.2: 16-22).
         Entendemos agora que Jesus não veio trazer a salvação somente à Israel. Mas, primeiro em Israel, e depois à todas as nações da terra. Por que razão Deus suscitaria desta vez um Juiz para libertar toda a humanidade? "Porque todos (os habitantes da terra) pecaram e destituídos estão da glória de Deus." (Rom.3:23)
 Sim, assim como foi com Israel no seu relacionamento com o Senhor-Deus, assim acontece com toda a terra.
A terra está de todo quebrantada, a terra está de todo fendida, a terra está de todo abalada. A terra cambaleia como o ébrio, e balanceia como a rede de dormir; e a sua transgressão se torna pesada sobre ela, e ela cai, e nunca mais se levantará.” (Es.24: 19,20)
No entanto, se as coisas são assim, os verdadeiros discípulos de Cristo devem saber, portanto, (ao exemplo do Seu Senhor) o que está acontecendo. Recordem que eu disse acima: "a violência é uma reacção". Portanto, os verdadeiros discípulos de Cristo não podem, nem se opor pela violência aos reis da terra; muito menos tornarem-se governantes neste mundo; para não participar no reinado da injustiça. Que injustiça? Eis o que O Senhor nos ensina a este propósito:
“Jesus, pois, chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles. Não será assim entre vós…” (Mat.20 25,26).
À vós todos pois, que vos reconheçais em Cristo, levando convosco o Seu Nome! Importa-vos saber que, ao fazer parte destes governos das nações, vos coloqueis ao lado, ou ao serviço de poderes tirânicos e que impõem terríveis sofrimentos aos seus povos. Portanto, vos militeis contra o propósito de Deus para a humanidade. Reparem no que aconteceu com Moisés… quando a sua vocação lhe foi revelada: ele abandonou a vida política; saiu do grupo dos dominadores do mundo, e negou a glória duma das mais poderosas nações daquela época. Antes, preferiu o vitupério do Cristo aos tesouros do Egipto (Heb.11:24-27). Saulo de Tarso (Paulo) recusou a glória e honra que partilhava com o grupo dos líderes religiosos (os poderosos) do seu tempo e escolheu também a vergonha de servir O Cristo; como Moisés (Gal.1:13-16; Fil.3:7,8). Hoje, os pastores cristãos fazem a manobra contrária: abandonar a vocação para chefiar o mundo e ter gozo do pecado por algum tempo. Quanto aos verdadeiros discípulos de Cristo, temos sim por maiores riquezas o opróbrio de Cristo, do que os tesouros do mundo. Aí está a diferença!   
Confrontado com a injustiça, um verdadeiro discípulo de Cristo não reage com violência. Porque, neste mundo agitado ou turbulento, temos em nossos corações o bem mais precioso que O Senhor nos deixou, a fim de suportar esses momentos difíceis que se abatem na terra: Sua paz.
Deixo-vos A PAZ, a MINHA PAZ vos dou; eu não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo.14:27)
Entendem o que isso significa? Pese embora tudo ao nosso redor desmoronar; e apesar de não estarmos em paz neste mundo; todavia TEMOS PAZ EM NÓS MESMO! É por esta razão que não nos deixamos atemorizar pelos acontecimentos que abalam a terra.
Enquanto, o comportamento dos impios vos perturbar. E que a injustiça dos homens vos faz ferver de ira por dentro de vós mesmo, isto prova que ainda não experimentaram essa paz do Senhor Jesus. Essa paz nos foi justamente dada para esse efeito. É essa paz que desarma os nossos corações e nosso homem interior, de toda espécie de violência. Pois, tendo sido avisados sobre o que havia de acontecer… NÓS SABEMOS O QUE SE PASSA. Semelhante à um perfume de cheiro suave derramado neste mundo putrefacto; insistindo sobre a pregação do Evangelho da Verdade, espalhamos essa paz de Jesus à todos os homens para que aceitam a solução divina aos males que assolam a humanidade: JESUS CRISTO. Este é a panaceia universal. Trazemos assim o reino de Deus à todos homens da terra. Este Reino dos céus que já está no nosso meio, pela Igreja do Cristo. Ao mesmo tempo que transmitimos à esses homens a ESPERANÇA neste Reino de Deus vindouro, que será estabelecido sobre a terra no tempo determinado.       
Trazemos sim o Reino e reinado (autoridade) de Deus nos corações dos homens de boa vontade. Corações dentro dos quais reinam doravante a PAZ e a JUSTIÇA, pelo amor divino derramado em nós, e que nos liberta de toda forma de violências, ambições, cobiças, ódio, remorsos ou ressentimentos, etc. que caracterizam a raça humana em decadência. Porque, se hoje “o céu está em nós”, virá O Grande Dia em que “o céu estará na terra”. Pelo que, insistimos sobre este Reino de Deus que será estabelecido sobre a terra, quando Cristo reinará; e que a vontade de Deus será efectiva e manifesta “assim na terra como no céu”. Quando se cumprir o que Lhe pedimos diariamente:
 "Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mat. 6.10)
Um discípulo do Cristo advertido acerca do Reino dos céus não pode ser um reaccionário, um rebelde, um revoltoso, um revolucionário, ou sei lá… Porque ele já foi instruído nos caminhos da verdade. Como está escrito em Rom.8, isto:
“18 Pois tenho para mim que as aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que EM NÓS há-de ser revelada. 19 Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. 20 Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, 21 na esperança de que também a própria criação há-de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. 22 Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; 23 e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoração, a saber, a redenção do nosso corpo. 24 Porque na esperança fomos salvos. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? 25 Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.”
Sim, persisto e assino isso: os discípulos de Cristo NUNCA devem recorrer à violência sob qualquer forma (porque isto é também uma forma de injustiça) para combater a injustiça da qual são vítimas. Eles não devem também procurar soluções humanas. Eles esperam o que eles não vêem, esperando-o com perseverança. O que esperam eles assim? Um Reino de Deus... Uma pátria celeste. Chame isto: utopia, se o coração mandar. Mas os filhos da Verdade sabem disso: é na esperança que somos salvos. E ESTA ESPERANÇA NÃO É ENGANOSA!
Não sejais pois líderes-Barrabás. Nem imitai os que assim fazem na sua perdição.

 

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